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Postado por em Abr 9, 2014

Sob o céu de Marrakech

Sob o céu de Marrakech

Personagens:
Rapha – saxofonista mestrando brasileiro e integrante do grupo Amanajé
Rodrigo – baixista brasileiro integrante do grupo Amanajé
Lucas – baterista brasileiro também integrante do grupo Amanajé
Júlia – pianista mestranda brasileira
Mariana – violoncelista brasileira que iria tocar com a Júlia
Murat – intérprete universitário Marroquino
Eu – Hercules, o pianista brasileiro integrante do grupo Amanajé e também príncipe ladrão.

Havia uma TV online em São Paulo chamada Cia da Música. Alguns colegas apresentavam programas e um desses programas era o Concepção Rítmica do Digão. Digão é um grande amigo meu que sempre gostou de colocar apelido nos amigos. Resolveu então me apelidar carinhosamente de príncipe do Senagal. O legal foi que durante um programa que participei ele resolveu me chamar pelo apelido e os que estavam online começaram a perguntar se eu realmente era a tal majestade senegalesa! Bom, até era, mas entre os nossos amigos e sob o céu de São Paulo. No Marrocos foi bem diferente…

Viajei em 2009 com o grupo Amanajé para tocar em Marrakech. Tocaríamos em um festival Universitário, o FIMUM VI. Legal, não é? É… até seria legal se todos os universitários participantes fossem músicos ou se ao menos tocassem bem, mas não era o caso…
Chegando lá encontramos uma cidade de arquitetura monocromática onde só se falava árabe e um pouco de francês, mas bem pouco. Um pais islâmico, mas que por estar na ponta do continente não era tão radical assim.
Era tudo meio precário, mas o resort em que ficamos impressionava! Impressionava pela estrutura, mas não pela higiene do café da manhã – os caras traziam o pão debaixo do braço – e nem pelo bebedouro do saguão – havia 1 bebedouro com um único copo de água. A piscina era linda de qualquer forma!

Viagem Marrocos 170 small

No dia seguinte ao pouso nas terras marroquinas fomos fazer o câmbio. Lucas e eu fomos caminhando atrás, fazendo contas para converter real por Dirham marroquino. Tirei o celular do bolso para usar a calculadora. Instantaneamente ouvi um barulho e quando olhei para trás vi dois caras em uma mobilete. Deixaram a mobilete no chão e vieram na minha direção. Pareciam bandidos. Me agarraram pela camiseta e começaram a puxar forte sem falar, explicar nada. Uma confusão se instaurou nas ruas de Marrakech e o pior: eu era protagonista! Pensei comigo mesmo “caramba!”. Ou será que não pensei nada…? Não lembro… O que lembro mesmo que é que o Lucas começou a bater nos caras!!! Ai sim lembro o que pensei: “cara, você tá loko?!!! A gente vai morrer aqui!!!” Eu gritava alto para que o Murat, o guia, me ouvisse. Não ouvia. Enquanto isso eu tentava fugir dos caras e o Lucas os socava! Enfim o guia e intérprete universitário me ouviu e veio. Veio até tranquilo demais! Ao contrário da Júlia, ela veio correndo. Murat foi conversar com o piloto da mobilete que havia me agarrado. Ficaram lá falando árabe por um tempo. Depois ele vira pra a gente e explica em inglês que os caras eram policias à paisana. Eles acharam que eu era um ladrão nigeriano e que ao tirar o celular do bolso estava tirando uma arma para na sequência assaltar meus próprios colegas!
Preconceito racial? Sim, e descarado! E você não fez nada? Até tentei. Depois do incidente liguei no consulado brasileiro no Marrocos na esperança de falar português com algum cidadão. Ninguém falava português… Tentei inglês. Ninguém falava nem entendia inglês… o meu inglês então nem se fala…! Tentaria falar árabe se soubesse, mas não sabia. Não sei ainda… mas um dia aprendo… ou melhor, não aprendo! Senão não haverá mais emoção quando do meu retorno às terras marroquinas!

Isso tudo aconteceu antes do show. Tocaríamos dentro de uma universidade em Marrakech. Fomos lá, quero dizer, eu fui. Sozinho. Rapha, Rodrigo e Lucas não se adaptaram à comida do pais e foram comer no Mac Donalds. O problema foi que os sóbrios organizadores alteraram a ordem de apresentação dos grupos e o Amanajé que seria o último dos 10 grupos se tornou o segundo. Eu estava no auditório que aconteceria o show e eles no Mac Donalds comendo “x cabrito” – é que a impressão que eles tiveram foi que a comida de lá era toda a base cabras, até a do Mac Donalds. Sorte que havia uma menina super simpática que falava inglês! Consegui explicar a ela. Eles chegaram a tempo! A tempo de entrar na sala e irem direto pro palco! Subimos todos pilhados, estressados. Para completar o piano estava instalado a vários metros de distância do palco. E assim tocamos por 30 minutos. Foi contagiaste, mas eu não sabia dizer se era contagiaste para o bem ou para o mal! Os universitário marroquinos gritavam muito! Faziam umas poliritimias loucas tocando umas pandeirolas e parciam que iam dar um mosh, mas em cima da gente! Depois descobrimos que eles estavam gostando.

A viagem pararia por ai: me passei por ladrão e fizemos um show de meia hora, ruim, estressante e louco. Mas apareceu outro show, em uma praça pública. Esse sim foi bem legal e eles gostaram muito!

Eu não aguentava mais ouvir árabe e francês. Voltamos pro Brasil, escala em Lisboa, não havia vôo no mesmo dia, overbooking. Pelo menos encontramos enfim, pessoas falando um idioma que conseguíamos entender, não é? Não, não é…! Eu conseguia entender melhor os espanhóis do que os portugueses! Ficamos por lá. Foi bom que revimos uns amigos e comemos bacalhau. Voltamos no outro dia e ai sim pessoas falando o que a gente entendia!

E assim seguimos a vida: hora príncipe, hora ladrão… sob o céu de Marrakech.

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